O programa propõe uma viagem pelo nascimento e consolidação da linguagem instrumental europeia entre o primeiro Barroco italiano e o pleno desenvolvimento da escrita para violino e instrumentos dedilhados no final do século XVII e início do XVIII. Num contexto marcado pela emergência do stile moderno, pela valorização da expressividade individual e pela afirmação da sonata como género autónomo, estas obras testemunham a transformação da música instrumental de mera extensão da prática vocal renascentista em linguagem idiomática, virtuosística e profundamente retórica.
No centro deste percurso encontram-se nomes fundamentais da escola italiana do Seiscento, como Dario Castello e Giovanni Battista Fontana, cujas sonatas revelam a liberdade formal, os contrastes de andamento e a escrita fragmentada típicos do novo estilo concertante nascido em Veneza. A alternância entre secções rápidas e lentas, os arrojados contrastes harmónicos e a exploração do virtuosismo solístico anunciam uma estética marcada pela teatralidade e pela experimentação, em sintonia com o ambiente artístico que rodeava os primeiros desenvolvimentos da ópera e da música instrumental autónoma.
Paralelamente, a presença de mestres do alaúde e da tiorba como Girolamo Kapsberger e Alessandro Piccinini evidencia a importância da tradição dedilhada italiana na consolidação de formas como a toccata, a ciaccona e as variações. A escrita improvisatória, os arpejos expansivos e o uso expressivo da harmonia refletem a transição do contraponto renascentista para uma conceção mais vertical e afetiva do discurso musical. Já em meados do século XVII, compositores como Pandolfo Mealli aprofundam a dimensão dramática da sonata, explorando contrastes retóricos que antecipam o barroco maduro.
O itinerário culmina na expansão europeia destas linguagens: da elegância francesa de Robert de Visée à escrita violinística germânica de Johann Paul von Westhoff, cuja imitação do alaúde revela o diálogo entre tradições nacionais, passando ainda pela expressividade galante de Maksym Berezovsky, já no limiar do Classicismo. Assim, o programa traça um arco histórico que evidencia como a Itália barroca irradiou modelos formais e estilísticos por toda a Europa, moldando uma nova consciência instrumental baseada no virtuosismo, na retórica dos afetos e na afirmação do intérprete como protagonista artístico.
Violino Barroco
Nascido na Ucrânia, no seio de uma família de longa tradição musical, Denys Stetsenko concluiu a sua formação clássica já em Portugal, tanto em violino dito “moderno” como em violino barroco.
A sua evolução artística contou com a orientação de professores como Felix Andrievsky, Enrico Onofri e Amandine Beyer, entre outros.
Paralelamente à formação clássica, expandiu o seu leque de géneros musicais através da exploração da música do mundo, participando em projectos de música portuguesa, música tradicional europeia, tango argentino e música da América Latina. É membro fundador do Quarteto Arabesco e do Parapente700.
Tem partilhado palcos e estúdios de gravação com agrupamentos e artistas como Sete Lágrimas, Os Músicos do Tejo, Orquestra Barroca da Casa da Música, Martin Sued & Orquestra Assintomática, Espírito Nativo, Pedro Jóia, Rodrigo Leão, Rita Redshoes, Dead Combo e Benjamin Clementine, entre outros.
Como formador na área da música clássica, lecionou violino e música de câmara na Academia de Música de Santa Cecília (Lisboa) durante 17 anos e foi professor associado de violino barroco na Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo do Porto entre 2011 e 2014. Desde 2011 orienta cursos de música tradicional instrumental em vários países europeus e, desde 2015, integra a equipa de mentores do Ethno Portugal, residência artística internacional para jovens músicos.
Tiorba
Natural de Aveiro, Tiago Matias concluiu em 2002 o Curso Complementar de Guitarra Clássica no Conservatório de Música de Aveiro Calouste Gulbenkian, com classificação máxima no exame final, e em 2005 a licenciatura em Guitarra na Escola Superior de Música de Lisboa. Foi distinguido em vários concursos, destacando-se o 1.º prémio no Música en Compostela (2004) e o 3.º prémio no Concurso Legato (2000).
Colabora regularmente com agrupamentos como a Orquestra Sinfónica Portuguesa, Ludovice Ensemble, Segréis de Lisboa, Sete Lágrimas, Orquestra Barroca da Casa da Música e Divino Sospiro. Gravou 18 discos com alguns destes grupos e apresentou-se em salas e festivais de referência a nível internacional. Em 2012 fundou, com Filipe Faria, o ensemble de música antiga Noa Noa, com o qual editou quatro discos.
Em 2021 editou o seu primeiro disco a solo, Cifras de Viola, nomeado para os Prémios Play. Seguiram-se Sospiro (2023), dedicado à vihuela e acompanhado de livro homónimo, Fantasia (2024), primeira gravação mundial integralmente dedicada à música contemporânea para tiorba solo, e Cordovil (2024), com a obra integral para guitarra barroca de José Ferreira Cordovil.
Em 2025 editou Sombras, quinto disco a solo, com obra inédita para guitarra barroca de António Marques Lésbio.
Na temporada 2025/2026 realiza a sua primeira digressão mundial a solo, com 26 concertos em 12 países. Como pedagogo, orientou masterclasses e lecionou no Conservatório de Música de Aveiro e no Conservatório Nacional. Foi diretor do Quartel das Artes entre 2018 e 2024, é investigador do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos e doutorando em Estudos Artísticos na Universidade de Coimbra.