O presente programa insere-se plenamente no universo estético do Barroco europeu dos séculos XVII e XVIII, período marcado pela centralidade da retórica musical, pela valorização da expressão dos afetos e pela estreita relação entre música, texto e espiritualidade. Neste contexto, a voz solista acompanhada por baixo contínuo assume um papel privilegiado como meio de comunicação direta entre o compositor, o intérprete e o ouvinte.
As árias de Johann Sebastian Bach, extraídas de cantatas destinadas ao calendário litúrgico luterano, refletem o rigor formal e a profundidade teológica característicos da tradição alemã. A escrita vocal, sustentada por uma harmonia densa e simbólica, traduz a aceitação cristã do sofrimento e a confiança na palavra divina, numa síntese exemplar entre música e doutrina.
Em George Frideric Handel, compositor cosmopolita por excelência, formam-se pontes entre a tradição alemã, o lirismo italiano e o gosto inglês. A ária de Theodora revela a influência da ópera italiana na escrita oratoriana, enquanto as Neun deutsche Arien representam um raro e refinado encontro entre a língua alemã e o estilo cantabile italiano, privilegiando uma expressão intimista e contemplativa.
O oratório Maddalena ai piedi di Cristo, de Antonio Caldara, insere-se na tradição romana e vienense do início do século XVIII, marcada pelo uso do oratório como espaço de dramatização interior e moral. A ária “Pompe inutili”, com violoncelo obbligato, exemplifica a escrita expressiva e retoricamente elaborada do Barroco tardio italiano, onde o diálogo instrumental intensifica o conteúdo espiritual do texto.
A sonata instrumental de Handel recorda a importância da música instrumental no Barroco, concebida segundo princípios retóricos semelhantes aos da música vocal. Assim, este concerto propõe uma viagem pela diversidade estilística do Barroco europeu, evidenciando diferentes abordagens à composição sacra e espiritual num período de extraordinária riqueza artística e expressiva.
D’Aquém Mar é um ensemble vocal-instrumental dedicado à interpretação historicamente informada do repertório dos séculos XVII e XVIII, com especial enfoque na música ibérica e no diálogo entre tradição sacra e profana. O grupo distingue-se por uma abordagem artística rigorosa, aliando investigação musicológica a uma expressividade interpretativa viva e comunicativa.
O ensemble é constituído por Patrícia Modesto (soprano), César Nogueira (violino barroco), Ana Raquel Pinheiro (violoncelo barroco) e Elsa Mathei (órgão), músicos com percurso sólido na música antiga e presença regular em contextos de concerto, festivais e projetos de criação artística.
O trabalho do D’Aquém Mar desenvolve-se a partir da exploração de fontes históricas e da recriação de práticas performativas do período barroco, procurando aproximar o público contemporâneo da riqueza estética e emocional deste repertório. Os seus programas cruzam obras de compositores consagrados com repertório menos divulgado, contribuindo para a valorização e difusão do património musical.
Com uma identidade artística clara e uma formação versátil, o D’Aquém Mar apresenta-se em contextos intimistas e espaços patrimoniais, privilegiando a proximidade com o público e a dimensão narrativa da música.
Soprano
Patrícia Modesto, natural de Faro, iniciou os seus estudos vocais na Escola de Música do Conservatório Nacional, na classe de canto da Professora Manuela de Sá. Em 2019, concluiu o Mestrado em Ensino da Música – vertente de Canto, pela Escola Superior de Música de Lisboa, sob orientação do Professor Luís Madureira, obtendo a classificação máxima na apresentação da sua tese sobre a influência do canto lírico na prática de outros géneros musicais.
Em concurso, recebeu o 1º prémio no Concurso de Canto dos Conservatórios Oficiais de Música em 2016. Ainda nesse mesmo ano, participou no Concurso da Cidade de Almada na categoria de canto onde arrecadou o 3º prémio e Melhor Interpretação de Música Portuguesa.
Do repertório operático interpretado, destacam-se os papéis de “Rainha da Noite” em Flauta Mágica, “Dido” e “2nd Woman” em Dido e Aeneias, “Servilia” em La Clemenza di Tito, “Olympia” em Os Contos de Hoffmann, “Zerlina” e “Donna Anna” em Don Giovanni e “Serpina” em A Serva Padrona. Em concerto e oratória apresentou-se como solista em “Messiah” de Händel, “Stabat Mater” de Pergolesi; “BWV 23, 24 e 133” de Bach; “Carmina Burana” de Carl Orff; “Oratorio de Natal” de Saint Saens, “Missa Concertata” de António Leal Moreira, entre outros.
Ao longo do seu percurso, Patrícia Modesto tem colaborado com importantes ensembles, orquestras e maestros do panorama musical português e estrangeiro, de destacar Sigiswald Kuijken, José Eduardo Gomes, Jean-Marc Burfin, João Paulo Santos, Rolf Beck, Pedro Amaral, António Vassalo Lourenço, Jan Wierzba, entre outros.
Atualmente, a soprano participa em inúmeros concertos em Portugal e no estrangeiro, de salientar o seu recital “Emoções de Mulher” apresentado em direto na Antena 2, a participação nos festivais Cistermusica, com o grupo Avres Serva e Operafest Lisboa e o “Messiah” de Händel, dirigido por Rolf Beck, na Ópera de Margrave, em Bayreuth, concerto no qual recebeu uma excelente crítica, evidenciando a sua voz como “bem formada, poderosa e impressionante”.
violino barroco
Natural de Coimbra, estudou na Universidade de Aveiro, na classe do professor Zóltan Santa, tendo terminado em 2010 a Licenciatura Profissionalizada em Ensino de Música. Iniciou no mesmo ano a frequência do Mestrado em Música na Academia Nacional Superior de Orquestra, na classe do professor Aníbal Lima.
No seu percurso profissional teve a oportunidade de colaborar com diversas orquestras e agrupamentos, destacando-se Remix Ensemble, Orquestra Remix, Orquestra Filarmonia das Beiras, Orquestra Nacional do Porto, Orquestra Metropolitana de Lisboa, Ludovice Ensemble, Concerto Campestre e Orquestra Gulbenkian, entre outros. É, desde 2009, membro regular da Orquestra Barroca Casa da Música.
Trabalhou junto de grandes solistas, como Alina Ibragimova, Enrico Onofri, Andreas Staier, Riccardo Minasi, Fabio Biondi, Dmitri Sinkovsky e Rachel Podger, e com importantes maestros, como Laurence Cummings, Christophe Rousset, Rinaldo Alessandrini, Masaaki Suzuki, Andrew Parrott, Paul Hillier, Harry Christophers, Peter Rundel, Heinz Holliger, Pedro Amaral, Pedro Neves, Evgeny Bushkov, Michael Zilm e Emilio Pomàrico.
Foi seleccionado para participar em duas edições da Remix Summer Academy. Colaborou em gravações para a etiqueta Naxos (Concerto Campestre), e Harmonia Mundi (Orquestra Barroca Casa da Música e Andreas Staier).
É professor de Violino e Música de Câmara na Escola Profissional Metropolitana e frequenta o Mestrado em Performance, vertente de Música Antiga, na ESML, na classe do professor Benjamin Chénier.
Cravo
A cravista portuguesa Elsa Sofia de Oliveira Santos Mathei estudou Gestão de Empresas em Lisboa. Concluiu o curso superior de Cravo na Escola Superior de Música e das Artes do Espetáculo (ESMAE), no Porto, uma pós-graduação em Pianoforte na ESMUC, em Barcelona, e a licenciatura em Cravo na Hogeschool voor de Kunsten Utrecht, nos Países Baixos, onde estudou com Siebe Henstra.
Viveu em cidades como Barcelona, Utrecht, Lisboa, Porto e, atualmente, Lagos, percurso que se traduziu num contacto profundo com diversas culturas e experiências que enriqueceram a sua vida artística e pessoal. Durante o seu percurso académico, desenvolveu paralelamente a sua atividade pedagógica, tendo promovido, ao longo da última década, a implementação do ensino do cravo em várias instituições de ensino artístico especializado no Algarve.
Desde setembro de 2017 é repetidora no Conservatório Nacional de Lisboa e, desde outubro de 2018, docente de Cravo no Conservatório de Música de Loulé. É cofundadora e membro da equipa pedagógica do Conservatório de Artes de Lagoa (desde setembro de 2018), onde implementou um modelo organizacional transversal, assente na ausência de hierarquias. Integra ainda o coletivo artístico/associação Contemporaneus, dedicado à promoção da música contemporânea e à criação multidisciplinar, tendo participado em diversos projetos de experimentação artística baseados no diálogo entre passado e presente.
Enquanto cravista acompanhadora, colabora regularmente em cursos e agrupamentos de música de câmara, bem como com orquestras. Apresenta-se com frequência em festivais de música e foi fundadora e diretora artística do festival de música antiga Sons Antigos Sul, no Barlavento Algarvio. Foi igualmente fundadora e diretora artística do D’Aquém Mar – Festival Out-(In)Verno.
Com o objetivo de contrariar o envelhecimento dos públicos da música clássica e antiga, tem vindo, nos últimos anos, a desenvolver estratégias inovadoras para alcançar públicos mais jovens, sobretudo em contextos com menor acesso à educação cultural. Nesse âmbito, criou o projeto multidisciplinar Espelhos Entre Paisagens, que cruza música, artes visuais e teatro de sombras, dirigido ao público adolescente.
É criadora e diretora do projeto GarB’urlesco, atualmente em fase de criação, uma reflexão multidisciplinar sobre os efeitos do turismo de massas no Algarve e na sua identidade cultural, apoiado pela Direção-Geral das Artes, cujo processo criativo privilegia modelos horizontais de decisão em grupo. Desenvolveu ainda outros projetos multidisciplinares, como Espelhos em Movimento e Elementos II, e foi promotora das exposições de fotografia Polarities e EXTRACTS, bem como da exposição de gravura Chaminés Algarvias.
É diretora artística do Projeto Armilar, fundado nos Países Baixos em 2028, e apresenta-se regularmente em concerto, a solo e em ensemble, em Portugal e no estrangeiro.
Violoncelo Barroco
Leciona violoncelo na Academia de Música de Santa Cecília (desde 2004) sendo também coordenadora da classe de cordas. Tem sido regularmente convidada para lecionar em masterclasses de violoncelo e para integrar júris de concursos, como o PJM 2015, categoria de música barroca
É responsável pelo Serviço Educativo do Centro de Estudos Musicais Setecentistas de Portugal (CEMSP) e coordenadora de cordas da Academia Portuguesa de Artes Musicais (APARM). Iniciou os estudos de violoncelo aos 12 anos na EPABI, Escola Profissional de Artes da Beira Interior, com o professor Rogério Peixinho. Licenciou-se em violoncelo na ESART, Escola Superior de Artes Aplicadas, na classe dos professores Miguel Rocha e Catherine Strynckx.
Concluiu ainda o Curso «Biennio di Specializzazione» na Scuola Civica di Musica di Milano na classe de violoncelo barroco do professor Gaetano Nasillo e frequentou o Curso de Mestrado na Academia Nacional Superior de Orquestra/Universidade Lusíada com o professor Paulo Gaio Lima. Premiada no Concurso de Arcos Júlio Cardona 2001, bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian durante vários anos e obteve ainda uma bolsa de mérito da Fondazione Marco Fodella em Itália. “O Violoncelo – Jogos para miúdos/prescrições para graúdos” é o seu primeiro livro.
Como violoncelista adjunta colaborou com as mais prestigiadas orquestras nacionais tais como a Orquestra Gulbenkian e a Orquestra Metropolitana de Lisboa e ainda agrupamentos e orquestras italianas incluindo La Risonanza, Academia Montis Regalis, entre outras. Gravou para editoras internacionais como Passacaille, Urania Records, Verso, Naxus, entre outras.
Colabora regularmente com a orquestra e ensemble Músicos do Tejo, Melleo Harmonia, Lisbon Film Orchestra, Orquestra Metropolitana de Lisboa, etc., e, desde 2005, integra a orquestra barroca Divino Sospiro. É membro do Quarteto Arabesco.