Este programa propõe uma viagem musical pela Europa dos séculos XVII e XVIII, revelando a evolução do gosto e da linguagem instrumental desde o refinamento barroco francês até à clareza e expressividade do Classicismo.
A abertura com Les Folies d’Espagne de Marin Marais insere-nos no universo da corte francesa de Luís XIV, onde a viola da gamba atingiu o seu auge. Baseada numa progressão harmónica antiga e amplamente difundida pela Europa, esta obra apresenta uma série de variações que exploram tanto a ornamentação elegante como o virtuosismo técnico, características centrais do estilo francês barroco.
A música de Johann Sebastian Bach representa o ponto culminante do barroco alemão. A Sonata em Dó Maior combina rigor estrutural com profunda expressividade. Os contrastes entre o lirismo do Andante, a energia do Presto, a introspeção do Adágio e o caráter dançante do Menuet refletem a síntese bachiana entre tradição contrapontística e formas de dança, numa escrita de grande densidade polifónica.
Com Gaetano Donizetti entramos já no universo do início do século XIX, onde a herança clássica se cruza com o lirismo operático italiano. A sua Sonata revela uma escrita cantabile, próxima da voz humana, com um Larghetto de caráter expressivo seguido de um Allegro mais leve e brilhante, evidenciando a transição para uma linguagem mais melodicamente orientada.
O Andantino do Concerto para harpa e flauta K. 299 de Wolfgang Amadeus Mozart exemplifica o ideal clássico de equilíbrio, transparência e diálogo entre instrumentos. Composto em Paris, este concerto reflete o gosto parisiense pela elegância e pela leveza, numa textura clara onde a melodia flui com naturalidade e refinamento.
A energia rítmica do Tambourin de François-Joseph Gossec evoca as danças populares do sul de França, trazendo ao programa um carácter festivo e vibrante. A simplicidade estrutural e o impulso rítmico são marcas de uma estética que antecipa o Classicismo e privilegia a clareza formal.
Por fim, a célebre Dance of the Blessed Spirits, da ópera Orfeo ed Euridice de Christoph Willibald Gluck, encerra o programa com uma atmosfera de serenidade e transcendência. Inserida no contexto da reforma operática promovida por Gluck, esta peça destaca-se pela sua pureza melódica e expressividade contida, afastando-se do virtuosismo excessivo em favor de uma comunicação emocional direta.
Assim, este percurso musical revela não apenas a diversidade de estilos e formas, mas também a transformação do pensamento musical europeu ao longo de mais de um século — da ornamentação elaborada do barroco à clareza e humanidade do classicismo emergente.
Harpa
Ana Ester Santos completou o Mestrado em Performance de Harpa no Conservatorium van Amsterdam, Holanda, na classe de Erika Waardenburg e Sandrine Chatron, tendo também participado do programa Erasmus na Hochschule für Musik “Hanns Eisler”, em Berlim, Alemanha. Atualmente frequenta o Mestrado em Ensino na Escola Superior de Música de Lisboa.
Durante a sua formação internacional, foi academista na Nederlands Philharmonisch Orkest, atuando em produções sinfónicas da temporada 2017/2018 em salas de prestígio como Concertgebouw, Muziekgebouw aan ’t IJ e Muziekgebouw Eindhoven.
Participou ainda em várias orquestras de jovens, incluindo a Neue Philharmonie de Berlim, a NJO – Orquestra Jovem Nacional Holandesa, a Silk Road Symphony Orchestra e a Orquestra Sinfónica do Conservatorium van Amsterdam, colaborando também com a Orquestra XXI.
Como solista, apresentou-se em diversos palcos e eventos internacionais, destacando-se o concerto em honra de Sua Majestade o Rei da Tailândia Bhumibol Adulyadej, em outubro de 2019, em Bangkok, e o recital a solo na International Harp Friends Meeting (2016, Holanda). Atuou também com a Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras e a Orquestra Com Spirito, tendo recebido prémios e bolsas, nomeadamente no Concurso de Harpa Holandês Rosa Spier (2016) e da Fundação holandesa Nationaal Muziek Fonds, que lhe ofereceu uma harpa de concerto Lyon & Healy.
Atualmente, é harpista na Banda Sinfónica da Guarda Nacional Republicana, mantendo uma carreira ativa como solista e colaboradora de orquestras como a Orquestra Sinfónica Portuguesa, Orquestra Gulbenkian, Orquestra Metropolitana de Lisboa, Orquestra de Câmara Portuguesa, Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras e Orquestra Municipal de Sintra.
Flauta Transversal e Traverso
Marina Camponês iniciou os estudos musicais aos 12 anos na Sociedade Filarmónica 25 de Julho de Santa Margarida do Arrabal e posteriormente no Orfeão de Leiria, na classe de João Pedro Fonseca, onde foi laureada por diversas vezes no concurso «O Melhor Aluno». Participou em masterclasses com destacados flautistas como Trevor Wye, William Bennett, Jacques Zoon, Robert Winn, Vicens Prats e outros.
Colabora regularmente com a Orquestra de Câmara Portuguesa, a Sinfonietta de Lisboa, a Camerata Amicis, a Orquestra Metropolitana de Lisboa e a Orquestra Gulbenkian.
É membro do Lisbon Ensemble 20.21, com o qual atuou no Festival Música Viva, na Temporada da Fundação Calouste Gulbenkian e em festivais de música em Viseu e Salamanca.
Concluiu o bacharelato na Escola Superior de Música de Lisboa (2007) e a licenciatura na Academia Nacional Superior de Orquestra (2009), obtendo 19 valores no exame final de flauta. Completou ainda o mestrado em Ensino da Música na Academia Nacional Superior de Orquestra/Universidade Lusíada e a pós-graduação em flauta transversal na Escola Superior de Música da Catalunha (ESMUC), sob orientação de Vicens Prats.
Leciona flauta transversal e música de câmara em diversas instituições, incluindo a Escola Profissional Metropolitana, a Escola de Música Nossa Senhora do Cabo e a Academia de Música de Lisboa, com alunos premiados em concursos nacionais como Prémio Bomtempo e Concurso Cultivarte. Foi laureada com o 3.º Prémio no 18.º Concurso de Interpretação do Estoril (2016) e obteve o 1.º Prémio no Prémio Jovens Músicos (2010). Apresentou-se como solista com a Orquestra Gulbenkian e a Orquestra Metropolitana de Lisboa.