Em 1618, René Descartes, então um jovem pensador, completava sua primeira obra reflexiva, Compendium Musicae, na qual investigava o poder da música em despertar paixões e afetos. Antes de se tornar célebre pela máxima “Penso, logo existo”, Descartes já reconhecia que a música era capaz de mover a mente e o coração, transformando o simples prazer estético em experiência profunda.
Inspirado por esse olhar atento sobre a relação entre emoção e arte, o presente programa convida o público a uma viagem pelo universo sonoro do século XVII. Entre cravo e fagote, percorremos os variados afetos da música barroca: da delicadeza introspectiva à alegria exuberante, da melancolia elegante à energia virtuosa.
O repertório reúne obras de compositores que marcaram o seu tempo e dialogam com este espírito. Das peças de Johann Sebastian Bach à expressividade de François Couperin, passando pela elegância de Christoph Schaffrath e pela escrita idiomática para fagote de Louis Merci, cada composição constitui um convite a escutar e sentir a música como reflexão sobre a existência e os afetos humanos.
Neste programa, cravo e fagote estabelecem um diálogo íntimo, revelando camadas de expressão que atravessam séculos, e mostrando que a música barroca, tão cuidadosa em suas formas, continua a tocar a alma de quem a escuta. Uma experiência em que história, filosofia e emoção se entrelaçam, convidando o público a redescobrir a música como ponte entre razão e sentimento.
Cravo
Jenny Silvestre é licenciada em Cravo pela Escola Superior de Música de Lisboa e em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. É doutorada em Ciências Musicais Históricas pela Universidade Nova de Lisboa e completou uma pós-graduação em Cravo na Escola Superior de Música da Catalunha, em Espanha, bem como uma pós-graduação em Gestão Empresarial, com especialização em Estratégia de Investimentos e Internacionalização, no Instituto Superior de Gestão de Lisboa.
É fundadora e Presidente da Academia Portuguesa de Artes Musicais e desempenhou funções como diretora artística e programadora em diversos festivais. Participou em estreias mundiais de obras de compositores contemporâneos, incluindo Magnificat em Talha Dourada e Horto Sereníssimo de Eurico Carrapatoso, O que aconteceu no Museu da Música… de Sérgio Azevedo, bem como Inventio 2 de Bruno Gabirro e Prelúdio e Festa, escrita especialmente para si.
Em 2009 foi Assessora Musical do premiado filme do realizador Raúl Ruiz, Mistérios de Lisboa, e em 2011 foi cravista convidada para o II Concurso Internacional de Composição Fernando Lopes Graça, dedicado ao cravo. Ao longo da sua carreira, atuou como solista, gravou diversos discos com diferentes ensembles e publicou vários artigos no domínio da musicologia histórica.
Fundou as classes de cravo da Escola de Música do Orfeão de Leiria e da Academia de Música de Santa Cecília, onde acumulou funções de Coordenadora Geral da Música. O seu percurso evidencia um equilíbrio entre performance, investigação histórica e promoção da música barroca e contemporânea em Portugal.
Fagote
Nascida em V. N. de Famalicão, Lurdes Carneiro iniciou os estudos de fagote em 1993 com Robert Glassburner na ARTAVE. Licenciou-se em 2003 na Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo do Porto, na classe de Hugues Kesteman, tendo frequentado também o Programa Erasmus na Staatliche Hochschule für Musik, em Karlsruhe, com Gunter Pfinzenmaier. Participou em masterclasses e cursos internacionais com Pierre Kerremans, Pierre Olivier Martens, Gustavo Nuñez, entre outros, e em 2000 integrou a Orquestra de Jovens da União Europeia, realizando concertos sob a direção de Vladimir Ashkenazy e outros maestros em Bolzano, Bruxelas e Hannover.
Ao longo do percurso formativo e profissional, foi premiada no Prémio Jovens Músicos, destacando-se com Menção Honrosa em Música de Câmara em 1998 e 2.º Prémio em Fagote em 2003. Colaborou com importantes orquestras e agrupamentos como a Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música, Orquestra Sinfónica Portuguesa, Real Filarmonia da Galicia, Orquestra Gulbenkian, Camerata Nov’Arte, Orquestra de Câmara Portuguesa e Remix Ensemble.
Lurdes Carneiro lecionou em diversas instituições, incluindo ARTAVE, Escola de Música de Perosinho, Academia de Música de Oliveira de Azeméis e Escola Profissional de Música de Viana do Castelo, além de dirigir masterclasses em escolas e academias em todo o país. Foi membro da Banda Sinfónica Portuguesa (2009–2017), participando em gravações, conquistando o 1.º Prémio no WMC Kerkrade e realizando digressões internacionais, incluindo uma turnê na China em 2014. Estreou ainda em Portugal o concerto Avatar de Dana Wilson, em 2016.
Completou especialização em Estudos da Criança – Educação Musical na Universidade do Minho (2008) e o Mestrado em Ensino da Música na Universidade Católica Portuguesa (2014). Entre 2020 e 2022 estudou fagote barroco com Alberto Grazzi no Conservatório Giuseppe Verdi de Milão, colaborando com ensembles de música antiga como Divino Sospiro, Concerto Ibérico, La Nave Va e a Orquestra Barroca da Casa da Música. É atualmente membro da Orquestra Metropolitana de Lisboa desde 2017.