Inicialmente ligada à prática vocal e coreográfica, a música instrumental no final do Renascimento e início do Barroco consegue emancipar-se e afirmar-se como espaço privilegiado de expressão afetiva, teatralidade e experimentação técnica. Este programa reflete exatamente isso: a transformação da linguagem instrumental das danças cortesãs às formas livres e virtuosísticas numa Europa em transformação.
O ponto de partida é a Aria Amorosa de Nicola Matteis, que testemunha a fusão entre tradição italiana e sensibilidade inglesa. Seguem-se a célebre Toccata Arpeggiata de Girolamo Kapsberger, exemplificando a liberdade improvisatória da teorba e a nova concepção harmónica do stile moderno, assim como a suite para viola da gamba de Jean Lacquemant, que funde o timbre quente e instrospetivo do registo grave do instrumento com os contrapontos de múltiplas vozes. Já o expressivo Tableau de l’opération de la taille de Marin Marais transporta o ouvinte para o requinte da corte francesa, onde a música instrumental assume dimensões pictóricas e dramáticas.
Também em Portugal, com compositores como Pedro Lopes Nogueira, a música instrumental a solo ganhou protagonismo, como na Fantasia para violino, enquanto que com Robert Visée e a sua suite em Sol Maior, é expressa a elegância e a subtileza do gosto francês, marcada por ornamentação refinada e expressividade contida. O concerto conclui com La Maresienne de Marin Marais, evocando a marcha e o orgulho marinho com elegante ornamentação barroca e contrastes dinâmicos, e finalmente uma sonata de Dieterich Buxtehude, com um movimento vivaz e contrapontístico e uso expressivo da dissonância cromática, testemunho da energia rítmica barroca do norte da Alemanha. Assim, o programa desenha um percurso europeu onde diferentes escolas dialogam entre si, afirmando a música instrumental como linguagem autónoma e cosmopolita.
Abona Ensemble é um agrupamento dedicado à interpretação historicamente informada da música dos séculos XVII e XVIII, explorando repertórios barrocos europeus através de uma abordagem centrada no diálogo, na retórica musical e na riqueza tímbrica dos instrumentos de época.
A formação reúne teorba, violino, violoncelo barroco e viola da gamba, permitindo uma leitura flexível e expressiva de obras que oscilam entre a intimidade camerística e o gesto concertante.
O ensemble desenvolve programas que cruzam diferentes tradições estéticas, com particular atenção ao barroco italiano e francês, destacando compositores como Marin Marais, Dario Castello e Antonio Vivaldi.
O seu trabalho procura valorizar tanto a individualidade de cada instrumento como a construção de um discurso coletivo coerente, onde o som, o gesto e a escuta assumem um papel central.
O Abona Ensemble afirma-se assim como um espaço de encontro entre rigor histórico e liberdade artística, propondo experiências musicais vivas e comunicativas para públicos diversos.
Violino
Começa os seus estudos musicais em Ribadeo (Lugo, Espanha) e posteriormente na Centro de Música Fingoi de Lugo e no Conservatorio Superior de Música de Oviedo (Espanha).
Especializa-se em Violino Barroco com Amandine Beyer na ESMAE (Porto), onde realizou a Licenciatura e o Mestrado em Interpretação. Estudou com Odile Edouard no Conservatório de Lyon.
Foi convidada para lecionar em várias edições da Academia Júnior de Música Barroca da ESMAE e no Ciclo de Música Antiga do Conservatório de Música da Jobra (Aveiro).
Participou em Masterclass com Enrico Onofri, Olivia Centurioni, Nick Robinson, Manfredo Kraemer, Alessandro Ciccolini, Anton Steck, Enrico Gatti, Peter Spissky, Monica Weismann, Francesca Viccari, François Fernandez e Ryo Terakado.
Tocou sob a direção de Ana Mafalda Castro, Pedro Sousa Silva, Pedro Castro, Alfredo Bernardini, Pedro Gandia, Huw Daniel, Laurence Cummings, Lars Ulrik Mortensen, Rachel Podger, Dimitri Sinkovsky, Fabio Biondi, Andreas Staier, entre outros.
Em 2010 funda o grupo de Música Antiga I Colori dell’Armonia. Participou com as seguintes agrupações: Divino Sospiro, Orquesta Barroca de la Universidad de Salamanca, Gli Incogniti, Flores da Música, Orquestra Barroca Vigo 430, Metáfora das Flores, Musurgia Ensemble, Ars Atlantica, Orquesta Barroca de Tenerife, Orquestra Barroca de Mateus, etc.
Colabora regularmente com Iberian Ensemble, Mvsica Antiqva Porto, Concerto Iberico e com a Orquestra Barroca Casa da Música.
Oferece regularmente conferências e masterclasses de Violino Barroco em Espanha e em Portugal.
Viola da Gamba
Um dos mais prolíficos gambistas da sua geração.
Integra importantes grupos de música antigo como o Capela Compostelana, Bando de Surunyo, La Galería del Claroscuro, Ensemble la Chimera, Banchet2to Musicale, Arte Mínima, e I colori della armonia, ou o grupo medieval Malandança.
Atua regularmente em diferentes festivais por Europa e EUA entre eles no Festival de Namur (Bélgica), Festival Yehudi Menuhim, de Gstaad, (Suiça), Innsbrucker Festwoche der Alte Musik, Festival de Granada, Festival de música religiosa de Salamanca, Festival de órgano de Burgos, Festival of Miami, e em diversos lugares ao longo da geografia europeia e EUA.
Atualmente combina uma actividade de concertista, produção e direção artística e docência. Deste 2012 é professor de viola da gamba e música de câmara nos IX, X, XI, XII, XIII, XIV, XV e XVI cursos de música antiga em Lisboa, na Escola Superior de Música do Porto e nos cursos do Palácio Nacional de Mafra, organizados pela ESML e a ESMAE. Desde 2016 é docente nos cursos bimensais de viola da gamba organizados pelo Ateneu Cultural Ciutat de Manises (Valência).
Teorba
Iniciou os seus estudos musicais no Orfeão de Ovar e na A.A.M.D.S., com a professora Edwiges Pacheco. Mais tarde estudou guitarra clássica nos conservatórios de Aveiro e Porto, com os professores Miguel Lélis e Mário Carreira. Em 2018 concluiu a Licenciatura em Música Antiga na ESMAE na classe de alaúde, com os professores Hugo Sanches e Ronaldo Lopes. Em 2020 concluiu o Mestrado em Ensino de Música – variante instrumento (alaúde) na ESMAE. Participou em diversos cursos e masterclasses de música antiga onde estudou com Eduardo Eguez, Vinícius Perez, Rafael Munõz, Peter Croton e William Carter.
Tem sido docente em diversas escolas de música, destacando-se a experiência como formador no 2º e 3º Ciclo de Música Antiga do Conservatório de Música da JOBRA. Desde 2020 é professor de alaúde da Escola de Música da Paróquia de Bonfim.
Como responsável de direção musical, ensaia, faz arranjos e compõe para a Trupe de Reis Associação Desportiva Ovarense desde 2010.
Colabora com a Orquestra de Bandolins de Esmoriz desde 2005 e Orquestra Portuguesa de Guitarras e Bandolins desde 2014.
Tem colaborado com diversos agrupamentos musicais, tais como o Coro de Câmara de São João da Madeira, Gaudium Vocis, Il Dolcimelo, Orquestra Barroca da Casa de Mateus, Mvsica Antiqva Porto, Sinfonietta de Braga, Ensemble São Tomás de Aquino, La Nave Va, Americantiga Ensemble, Bando de Surunyo, Portingaloise, entre outros.
Em 2017 criou o ensemble Liuto Cantabile com António Vieira, dedicado à interpretação histórica de repertório para bandolim. Integra ainda os grupos Spirito dell’Anima, Cuore Armonico, La Voix de l’Âme, Martins3 e Musurgia Ensemble.
Para o Município de Ovar, desenvolveu projetos musicais para a comemoração de diversas efemérides, destacando-se em 2019 o centenário da Monarquia do Norte e em 2020 o espetáculo Troupe de Reis António Dias Simões, inserido na Inscrição do Cantar dos Reis em Ovar no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.