Crux Fidelis: a Quaresma na música renascentista portuguesa propõe uma imersão no universo da polifonia sacra luso-ibérica entre os séculos XVI e XVII, enquadrando-a nas grandes correntes estilísticas que marcaram a Europa pós-Trento. Num período em que a Igreja Católica, após o Concílio de Trento, valorizava a clareza textual e a elevação espiritual da música litúrgica, a escrita polifónica desenvolvida na Península Ibérica dialogava intensamente com o modelo romano de Palestrina e com a tradição franco-flamenga, integrando equilíbrio formal, sobriedade expressiva e depuração contrapontística.
Neste contexto, compositores como Estêvão Lopes Morago, Francisco Martins e Diogo Dias Melgaz afirmam uma linguagem que, embora enraizada na herança renascentista, revela já a transição para sensibilidades proto-barrocas. A expressividade madrigalesca aplicada ao texto sacro, o recurso a contrastes harmónicos mais audazes e uma atenção crescente à dimensão afetiva da palavra aproximam este repertório das tendências que, em Itália e Espanha, conduziam à intensificação dramática da música religiosa no início do século XVII.
O programa integra ainda obras atribuídas a João IV de Portugal, figura central da cultura musical portuguesa. Para além do seu papel político, D. João IV destacou-se como teórico e colecionador, reunindo uma das mais importantes bibliotecas musicais da Europa do seu tempo — reflexo da circulação internacional de repertórios e tratados que ligava Portugal aos centros musicais de Roma, Madrid e Antuérpia. A destruição desse acervo no terramoto de 1755 não apaga a evidência de um país plenamente integrado nas redes artísticas europeias.
Assim, Crux Fidelis revela como a música quaresmal portuguesa se insere numa ampla paisagem estética europeia: fiel aos princípios do contraponto renascentista, mas aberta às novas correntes expressivas que anunciavam o Barroco. Entre tradição e renovação, este repertório testemunha a vitalidade de uma escola que soube assimilar influências internacionais e transformá-las numa linguagem própria, de intensa espiritualidade e refinada elaboração artística.
O coro Polyphonia Schola Cantorum, associação cultural com estatuto de pessoa coletiva de utilidade pública, foi criado em 1941 por iniciativa de Olga Violante, Sara Navarro Lopes, João da Silva Santos e Sebastião Cardoso e teve como primeiro Cantor-Mor (regente) o insigne musicólogo Mário de Sampayo Ribeiro, que o dirigiu até à sua morte, em 13 de maio de 1966. Foi intenção dos fundadores dar vida a um organismo coral de carácter permanente que pudesse dedicar-se, especialmente, à descoberta e divulgação dos tesouros da música portuguesa, então perdidos em arquivos e bibliotecas.
O êxito desta iniciativa foi notável: ressurgiram em todo o seu esplendor os centros musicais de Évora, Elvas, Lisboa, Coimbra e Viseu e, com eles, as obras dos grandes mestres dos séculos XVI e XVII, que Polyphonia deu a conhecer através da sua publicação e da sua interpretação em concertos. Com efeito, grande parte destas obras tem sido divulgada, desde a sua fundação, mantendo atividade ininterrupta, por todo o país e no estrangeiro, através de muitas centenas de atuações, da publicação de edições de partituras de música polifónica religiosa e popular portuguesa e, ainda, de gravações em disco de peças do seu repertório.
Atendendo à elevada contribuição de Polyphonia em prol da música, e em especial da música polifónica portuguesa, foi-lhe atribuída, em Outubro de 1985, a Medalha de Mérito Cultural pelo então ministro da Cultura. Desde 2004, o coro Polyphonia Schola Cantorum é dirigido pelo maestro Sérgio Fontão.
Direção
Um dos mais dinâmicos diretores corais portugueses, Sérgio Fontão concluiu o mestrado em Direção Coral na Escola Superior de Música de Lisboa, após estudos de Canto, Piano, Harpa e Percussão. É, desde 2004, o diretor artístico do coro Polyphonia Schola Cantorum. Colabora também com outros agrupamentos vocais e instrumentais (Voces Caelestes, Coro Gulbenkian, Orquestra Metropolitana de Lisboa, etc.), como maestro convidado, diretor artístico ou cantor. Como maestro ou cantor, tem-se apresentado em inúmeros países da Europa, da Ásia e das Américas. Gravou para as etiquetas Deutsche Grammophon, Erato, Naxos, Philips e Virgin, entre muitas outras.
Sérgio Fontão dirige um vasto repertório, que se estende da música medieval à criação musical contemporânea. Dirigiu já várias estreias mundiais, incluindo obras de Eurico Carrapatoso, Tiago Derriça e Vito Žuraj. Como maestro ensaiador, tem preparado coros para alguns dos mais reputados maestros a nível mundial, como Leonardo García Alarcón, Harry Christophers, Enrico Onofri e Peter Schreier, entre muitos outros. Entre 2013 e 2023, lecionou Direção e Coro, no âmbito da Licenciatura em Música na Comunidade, uma parceria entre a Escola Superior de Educação de Lisboa e a Escola Superior de Música de Lisboa. Tem trabalhado também como formador na área da direção coral e como membro de júris de concursos de música coral.