Este programa centra-se na prática da intabulação no século XVI, reunindo repertório para tecla, harpa e vihuela a partir de canções francesas e vilancicos ibéricos, bem como música preservada no manuscrito musical 242 da Universidade de Coimbra. A proposta articula versões vocais e instrumentais, evidenciando a estreita relação entre canto e prática instrumental no Renascimento.
Como afirma Tomás de Santa María, “pôr obras de canto de órgão no monocórdio é a origem e fonte […] de toda a arte do tocar”, sublinhando o papel central da intabulação na formação dos instrumentistas.
O programa tem como principal referência a coletânea Obras de música para tecla, arpa y vihuela de Antonio de Cabezón, publicada em Madrid em 1578 pelo seu filho, Hernando de Cabezón. Esta fonte fundamental da música instrumental ibérica reúne sobretudo intabulações de repertório vocal — litúrgico e profano — oriundo de tradições franco-flamenga e italiana, incluindo obras de compositores como Orlando di Lasso, Clemens non Papa e Thomas Crecquillon.
A intabulação consistia na transcrição de música polifónica vocal — originalmente difundida em livros de partes — para uma notação adaptada a instrumentos, permitindo alinhar verticalmente as vozes. Este processo não só facilitava a execução, como constituía uma ferramenta essencial de aprendizagem e de desenvolvimento composicional. As próprias fontes vocais da época reconhecem essa prática, indicando a sua adequação tanto à voz como aos instrumentos.
Grande parte deste repertório corresponde a intabulações ornamentadas, conhecidas como glosados, que desempenharam um papel decisivo na afirmação da música instrumental autónoma. As versões de Antonio e Hernando de Cabezón distinguem-se pela riqueza ornamental e exigência técnica, representando um desafio significativo para os intérpretes modernos.
O programa inclui ainda um glosado de Palero, proveniente do Libro de cifra nueva de Luis Venegas de Henestrosa (Alcalá de Henares, 1557), cujo prefácio indica a versatilidade deste repertório — apto a ser cantado, acompanhado ou interpretado por diferentes formações instrumentais.
Ao longo do concerto, os glosados são apresentados em diversas configurações — solo instrumental, versão vocal e formações mistas como harpa e cravo — recriando a flexibilidade performativa característica da prática musical renascentista.
Cravo
Joana Bagulho estudou piano na Academia de Amadores de Música de Lisboa e no Conservatório Nacional na classe dos professores Miguel Henriques e Tânia Achot.
Iniciou os estudos de cravo em 1994 na classe de Cremilde Rosado Fernandes tendo completado a licenciatura na Escola Superior de Música de Lisboa.
Participou em espectáculos de teatro, dança e em recitais de música de câmara tanto na área da Música Antiga como da música contemporânea.
É professora assistente da Escola Superior de Música de Lisboa desde 1999. Frequenta aulas particulares de cravo para aperfeiçoamento com a professora Elisabeth Joyé em Paris.
Actualmente é aluna de Mestrado em Música Antiga na Universidade de Aveiro, tendo como professor orientador Jaques Ogg.
canto e harpa
Maria Bayley começou os estudos musicais no Instituto Gregoriano de Lisboa, estudando cravo com Cristiano Holtz. Licenciou-se em Cravo no Conservatório Real de Haia com Jacques Ogg.
Obteve o mestrado em Teclados Medievais e Renascentistas na Schola Cantorum Basiliensis com Corina Marti e em Canto com especialização em ensemble de música antiga no Conservatório de Tilburg.
Estudou harpa barroca como segundo instrumento em ambos os mestrados, com Emma Huijsser e Heidrun Rosenzweig respectivamente.
Colabora regularmente com La Academia de los Nocturnos, Cantores Sancti Gregorii, Palma Choralis e O Bando de Surunyo. É vice-presidente da Associação Ars Hispana, dedicada à investigação e edição de música espanhola. Fundou o ensemble Ars Lusitana em 2011, dedicado a interpretar principalmente repertório português. É também membro fundador do Ensemble 258, dedicado à performance de música barroca.
Completou um mestrado em teoria de música antiga no Conservatório Real de Haia, e um mestrado em ensino de cravo na Escola Superior de Música de Lisboa com Ana Mafalda Castro. Presentemente, é estudante de Doutoramento na Universidade de Coimbra.