O programa traça um amplo arco cronológico que se estende do Renascimento ibérico ao Barroco pleno europeu, revelando a transformação da linguagem instrumental entre os séculos XVI e XVIII. Das danças cortesãs às formas livres e virtuosísticas, o repertório evidencia a progressiva emancipação da música instrumental, inicialmente ligada à prática vocal e coreográfica, até se afirmar como espaço privilegiado de expressão afetiva, teatralidade e experimentação técnica.
O ponto de partida situa-se no universo renascentista com as Pavanas de Luis de Milán e a célebre Tarlton’s Jig de John Dowland. Nestes exemplos, a escrita para vihuela e alaúde revela a elegância formal das danças e a íntima relação entre música e gesto coreográfico, ao mesmo tempo que explora a expressividade melancólica característica da estética elisabetana e ibérica. A clareza modal e o equilíbrio polifónico refletem ainda a herança humanista do século XVI.
Com o advento do Barroco, a linguagem torna-se mais contrastante e retórica. A célebre Toccata Arpeggiata de Girolamo Kapsberger exemplifica a liberdade improvisatória e a nova conceção harmónica do stile moderno, enquanto as Muzettes e o expressivo Tableau de l’opération de la taille de Marin Marais transportam o ouvinte para o requinte da corte francesa, onde a música instrumental assume dimensões pictóricas e dramáticas. Também Robert de Visée, com La plainte e a sua Suite para violino e teorba, traduz a elegância e a subtileza do gosto francês, marcada por ornamentação refinada e expressividade contida.
A vertente italiana e a sua projeção internacional surgem na sonata de Antonio Vivaldi, onde o contraste entre Andante e Allegro evidencia o dinamismo rítmico e o virtuosismo característicos do concerto barroco. As árias de Nicola Matteis testemunham a fusão entre tradição italiana e sensibilidade inglesa, enquanto o Prelúdio e Fantasia de Pedro Lopes Nogueira revela a receção destas correntes na Península Ibérica. Assim, o programa desenha um percurso europeu onde diferentes escolas dialogam entre si, afirmando a música instrumental como linguagem autónoma e cosmopolita.
Abona Ensemble é um agrupamento dedicado à interpretação historicamente informada da música dos séculos XVII e XVIII, explorando repertórios barrocos europeus através de uma abordagem centrada no diálogo, na retórica musical e na riqueza tímbrica dos instrumentos de época.
A formação reúne teorba, violino, violoncelo barroco e viola da gamba, permitindo uma leitura flexível e expressiva de obras que oscilam entre a intimidade camerística e o gesto concertante.
O ensemble desenvolve programas que cruzam diferentes tradições estéticas, com particular atenção ao barroco italiano e francês, destacando compositores como Marin Marais, Dario Castello e Antonio Vivaldi.
O seu trabalho procura valorizar tanto a individualidade de cada instrumento como a construção de um discurso coletivo coerente, onde o som, o gesto e a escuta assumem um papel central.
O Abona Ensemble afirma-se assim como um espaço de encontro entre rigor histórico e liberdade artística, propondo experiências musicais vivas e comunicativas para públicos diversos.
Teorba
Iniciou os estudos musicais no Curso de Piano do Conservatório Regional de Castelo Branco e licenciou-se em Formação Musical na ESART (Castelo Branco) e em Composição Musical na ESMAE (Porto). Concluiu ainda o Mestrado em Composição e Teoria Musical, orientado por Dimitris Andrikopoulos e Eugénio Amorim, desenvolvendo um trabalho sobre a colaboração entre a música e outras artes. Possui também um Mestrado em Ensino de Música pela Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa (Porto), onde foi bolseiro por mérito, e frequentou masterclasses com compositores de renome como Jonathan Harvey, Kaija Saariaho, Marko Cicilliani e Pascal Dusapin.
Participou em 2012 no 16º Workshop Anual de Percussão – Simpósio Trstěnice, na República Checa, sob orientação de Jeff Beer, Tomáš Ondrůšek e Ivo Medek, estreando a obra Txcta, para multipercussão. Nesse mesmo ano integrou o Projeto ENOA da Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa), sob orientação de Luca Francesconi, onde estreou Wolf_Gang, para soprano, barítono e orquestra. Gravou obras com o clarinetista Frederic Cardoso, incluindo False Entropy (2015, para clarinete baixo e tape) e Stereochromatic (2021, para clarinete e tape).
A sua produção inclui peças orquestrais e de câmara, destacando-se Dominó (orquestra), estreada pela Orquestra Sinfónica da ESMAE e apresentada pela Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música; Unwanted (voz e ensemble), estreada pelo Grupo de Música Contemporânea de Lisboa; e Hunga Mate (ensemble, didgeridoo, quatro vozes e eletrónica em tempo real), estreada pelo Ensemble I&D no Teatro Helena Sá e Costa. Em 2018 apresentou a instalação sonora infantil Material Orchestra e, em 2020, Stereochromatic na Casa da Música (Porto).
Tem lecionado Análise, Técnicas de Composição e Formação Musical em diversos conservatórios e academias em Portugal, desenvolvendo projetos que incentivam a criação, a exploração musical e a descoberta da análise e da composição entre os alunos, promovendo uma abordagem prática e experimental ao ensino da música contemporânea.
Violino
Estudou música e violino em Lugo, Oviedo (Espanha) e na Escola Profissional de Música de Viana do Castelo. Especializou-se em Violino Barroco com Amandine Beyer na ESMAE (Porto), onde realizou a Licenciatura e o Mestrado em Interpretação. Estudou com Odile Edouard no Conservatório de Lyon (ERASMUS, França).
Realizou o Mestrado em Ensino da Música na ESML (Lisboa). É convidada regularmente para lecionar na Academia Júnior de Música Barroca da ESMAE.Participou com os agrupamentos Divino Sospiro, Orquesta Barroca de la Universidad de Salamanca, Gli Incogniti, Flores de Música, entre outros.
Colabora regularmente com Orquestra Barroca da Casa da Música, Concerto Ibérico Orquestra Barroca e Orquestra Vigo 430. Ofereceu conferências e orientou masterclasses de Violino Barroco na Galiza e em Portugal. É professora no Curso de Música Antiga de Agolada.
Violoncelo
Licenciado pela Academia Nacional Superior de Orquestra na classe de Paulo Gaio Lima, prosseguiu os seus estudos nos Estados Unidos da América, na Universidade de Indiana, onde trabalhou com Tsuyoshi Tsutsumi e János Starker. Lecionou na String Academy da mesma universidade como assistente de Susan Moses e integrou, entre 2001 e 2003, a Orquestra de Jovens da União Europeia, atuando em importantes salas europeias sob a direção de maestros como Sir Colin Davis e Vladimir Ashkenazy.
Concluiu em 2014 o Doutoramento em Música na Boston University, sob orientação de Michael Reynolds e George Neikrug, desenvolvendo também trabalho na área do quarteto de cordas com Raphael Hillyer, do Quarteto Juilliard. A sua tese incidiu sobre a obra para violoncelo de Fernando Lopes Graça. Durante este período foi Professor Assistente de Michael Reynolds, integrou a Honor Society Phi Kappa Lambda e foi bolseiro de diversas instituições nacionais e internacionais.
Várias obras lhe são dedicadas, destacando-se Passo Cruzado, de Igor Iwanek, e Circumloquios Enrevesados, de Alejandro Castillo, estreadas nos Estados Unidos. Entre 2013 e 2018 foi diretor musical do projeto Violoncelos de Santa Cristina / Festival Internacional de Violoncelo de Santa Cristina, reunindo músicos e pedagogos de referência internacional.
Paralelamente, desenvolve uma intensa atividade na área da música antiga, dedicando-se ao violoncelo barroco e à viola da gamba, com formação junto de Sara Freiburg e Laura Jeppesen, e masterclasses com Phoebe Carrai e Stanley Ritchie. Atua regularmente a solo e em música de câmara, é membro do Iberian Ensemble e do Quarteto Suggia, leciona na Universidade de Aveiro, no Instituto Superior Jean Piaget de Viseu e na Universidade Católica, e orienta masterclasses em Portugal, Espanha, Brasil e Estados Unidos.